Reificações Peculiares
O pensamento tende ao universal, à essência, ainda que o período em que vivemos seja extremamente duro. A razão tem medo de si própria, de sua verdade, e isso se reflete em todos os poros da sociedade. Como cartas jogadas ao mar, para que em algum dia possam ser abertas como testemunhas oculares deste período bárbaro que passará, escrevemos e escreveremos sempre, pois temos a certeza na redenção do Homem. Historicizando Nietzsche: Um blog para todos (no futuro) e para ninguém (hoje).
Quem sou eu
Um ser milenar. Velho, mas muito velho mesmo. Quase gagá. Ultrapassado pois moderno demais para essa época. Moderno demais pra sucumbir à pós-modernidade.
Sexta-feira, Julho 10, 2009
Sábado, Julho 04, 2009
Limite
A sociologia passou de um momento a outro a me angustiar. Não me excita mais, ao menos momentaneamente. Considero-a neste instante limitada e limitante, espécie de camisa de força podadora da imersão do raciocínio. Como, aliás, toda ciência passa a ser depois de determinado limite. Qual seria este? Isto é objeto pra outro tópico...
Preciso de ar. De luz.
Me vejo muitas vezes como o jacaré: mergulho e passo horas dentro d'água até apreender o que tenho de aprender. No entanto, tenho pulmões, e não guelras ou brânquias. Tenho de subir pelo menos um instante para dar uma respirada. Volto lá para baixo, para o lodo, para o meu lar, um pouco mais aliviado...
Terminemos o que temos para terminar e partamos pra outra... Não seria capaz de passar mais trinta anos de minha vida fazendo a mesma coisa, a mesma sociologia do mesmo jeito e com os mesmos objetos e objetivos: traçar os elos significativos entre trajetórias e produções.
Espero, pelo menos, dar mais trabalho a um neófito na sociologia, como eu, caso ele tente me tomar como objeto.
Despistar o fingidor que finge sentir a dor que deveras sente na sociologia. A mesma dor do mundo, que é única.
Sexta-feira, Junho 19, 2009
Caligulinos.
Quinta-feira, Maio 14, 2009
Manifesto Herético.
Segunda-feira, Abril 06, 2009
Somos o que somos ou o que não queremos ser?
Com o tempo e o possível e decorrente estreitamento dos laços entre essas pessoas ideais, tão burguesamente sadias e acolhedoras, as máscaras sociais vão se afrouxando, revelando vez por outra réstias de verdade da face até então transfigurada e irradiantemente igual às demais.
O ser social ideal, ventríloco de nós mesmos projetado em nossa vida e que tanto insiste em fazer as vezes de nós para os outros, revela-se imediatamente. Seu oposto, o abscôndito ser real, muito lentamente - e quando se revela! Somos todos sublimes em nossa casca superficial. Desejamos sempre o bem e a felicidade, sabemos esquecer ofensas, somos sérios, trabalhadores e morais, afinal. Não ligamos para a vida dos outros, as situações comezinhas não nos seduzem, não falamos mal de ninguém, enfim, somos superiores à grande maioria.
E tudo isso se passa no mundo das idéias e das relações ideais.
À medida que vamos nos conhecendo, a nós e aos outros, o inferno vai se aproximando. Huis clos. Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo. Acusações, xingamentos, cobranças, revides, desfalques, briga, tumulto, guerra, vaidades mil, orgulhozinhos feridos, rancor e picadinhas de agulhas aos montes e em cada um. O terror social que nos impomos é bem repartido. Todos têm eqüanimemente seu quinhãozinho de sofrer e de fazer sofrer.
De repente nos vemos, por alguma situação não prevista e não bem quista, a sós... O que dizer daqueles momentos de silêncio da madrugada, aterradores pois não temos mais com o quê ou com quem nos distrair, nos enganar, nos encalacrar, onde vemos o que somos sem fato? O que dizer do momento de agonia na cama de um hospital, em que o contrato social aparece em nossa frente com um grande rasgo ao meio? O que dizer dessas situações em que descobrimos que tudo acaba, que nada daquele redemoinho de misérias valeu a pena, que somos indesejáveis em nossa inutilidade por parentes, amigos e até mesmo pela Igreja, que se despede de nós pela bem-remunerada extrema-unção? O que dizer do momento em que sentimos a fria mão dos enfermos enfermeiros nos tocando, nos trocando, nos averiguando em nossa ida sem fim?
Quem somos, afinal? O que deu errado em nossa feliz e livre classe média? Por que a inveja? Por que o rancor? Por que a incapacidade do perdão? Onde se encontram os sublimes seres sociais? Despidos de sociedade são tão mansinhos, tão dóceis, tão frágeis...
A verdade de nós dói em nós e nos outros porque somos intrinsecamente realizados e realizáveis na e pela relação.
Armas em punho, atacar! Pelo menos enquanto é tempo, pois o despertar real dura bem mais do que uma vida. Enquanto isso, vivamos como os chimpanzés: juntos sem saber por que, ferozes por nada sentir, vivos sem razão de ser.
Segunda-feira, Março 30, 2009
Família, tradição, inércia
O medo de futuro e decorrentemente de uma provável sensação de mudança surge a todo momento como uma constante na vida pretensamente líquida e cambiante da modernidade. Queremos todos – nós, da classe média, eles, os miseráveis, eles, os ricos, eles, os emergentes, eles, os remediados, eles, os desclassificados – apenas viver a nossa vidinha módica, rever todos os dias as referências simbólicas e materiais de nossa opulência ou de nossa miséria. Temos sempre, antes de tudo, que experimentar aquele gostinho de saber o que vai acontecer até o fim do dia. Ou de, pelo menos, antever razoavelmente as três ou quatro alternativas que poderão se abrir magicamente nos momentos de “liberdade” ofertados por esse período radiante: ir à balada, à academia – corpo são, mente sã. O contrário não é verdadeiro, segundo o dito – fazer compras em um shopping, assistir à familiar novela e reencontrar aqueles que amamos ao final da gloriosa jornada.
Vivemos para reviver. E assim as coisas caminham lentamente para o seu fim previsível – porém não visível. Chegará um dia, é claro, o momento de mudanças mais bruscas – ainda que o evitemos sempre em nossa mente. A perda de entes queridos abala as nossas rotinas tão rotineiramente estabelecidas. Expurgamos a mera possibilidade da perda do rotineiro como se fosse o próprio demônio que agisse naquele instante. Será mesmo a possibilidade de nunca mais revermos os entes o real motivo pelo exagero cometido nos enterros até mesmo por discretos burgueses charmosos? Por que será que a dor da saudade futura se coloca de modo tão premente naquele instante para logo em seguida ir se esvaindo e, com o passar de uns três meses, quase desaparecer por completo em termos de intensidade? Não seria a obrigatoriedade de uma mudança brusca, não planejada, ocasionada pelo súbito desaparecimento daqueles que faziam parte do quadro decorativo de nossas vidas que nos faria desesperar tanto nesses momentos recalcados até a medula?
A tradição que nos acomete desde o nascimento e que nos torna o que somos nessa sociedade é a de uma falsidade que nos corrompe como seres intrinsecamente mutáveis e mutantes: a de que nada deve mudar, nada muda e nada mudará. Lutamos sem mesmo nos darmos conta pelo mesmo, pela estática da vida, pelo não-movimento do fluxo do devir. E essa luta já perdemos no nível individual antes mesmo de começarmos a lutar, tendo em vista que somos mortais, que envelhecemos, que perdemos entes queridos, que passamos por situações e condições em sociedade as mais variadas e independentes de nossa vontade ou arbítrio. A sociedade é mudança em seu fulcro, mas aparenta inércia. Os arautos da defesa do mesmo, quer dizer, os que mais temem o novo e reproduzem as estruturas sociais incorporadas, podem ser vistos com facilidade dentre os defensores da forma “família”. O arranjo burguês figura como a solução para todos os problemas de ordem moral, para o ressurgimento dos “bons valores”, para a transmissão de toda a civilidade; enfim, como nos dizeres de Comte e Hegel, como a célula da sociedade.
De fato, esse arranjo dá o tônus do auto-engano compartilhado por todos nós: o de nossa eternidade eterna no mundo, o empuxo para a luta que travamos contra a realidade da morte e do envelhecimento, o véu que encobre a existência das distintas eras nas quais estamos inseridos, enfim, o escamoteamento de nossa condição de produtos e produtores da história. O casulo que nos protege é também aquele que não nos permite tornarmo-nos indivíduos de fato. Mamãe e papai, muito obrigado por tudo, pelo leite, pela casa, pela criação, pelas noites mal dormidas, pelo interesse desinteressado. Mas chega sempre para aquele que não teme o novo, o momento de dizer: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?”. As mães e pais nem sempre entendem e nem entenderão: a dinâmica social interdita em suas mentes a possibilidade de uma vida destemida em direção ao futuro. Benditos aqueles que podem e que conseguem proporcionar e viver a real liberdade a que estamos fadados a presenciar: a da ida constante do momento presente, sem buscar neuroticamente o tempo perdido.
Terça-feira, Março 24, 2009
Dostoiévski era brasileiro?
Segunda-feira, Março 16, 2009
E agora, Vandré?
Quase todos perdidos de armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição
De morrer pela pátria e viver sem razão"
E lá se vão os findos e distantes anos sessenta. Quando a esquerda, de acordo com o que podemos depreender dos versos da famosa Marselhesa brasileira composta por Geraldo Vandré, tinha a certeza de deter a certeza e a Verdade dos tempos. O sentido estava escancarado, à mão. O bonde da história passava bem em frente a nossa fronte, bastava agarrá-lo e partirmos para a felicidade. A ação era dirigida pela práxis Ideal da transformação social e política. Tudo claro, transparente, límpido, não tinha como dar errado. Era só fazermos a hora, não esperarmos acontecer.
E agora, Vandré?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama e protesta.
A falta de sentido era um privilégio dos "gorilas" do exército, que morriam pela pátria e viviam sem razão. Já em nossos dias , morrer pela pátria é um privilégio para poucos. Talvez um dos parcos momentos de sentido que movimentaria a vida nessa imensidão sem fim e sem fim.
E agora, Vandré?
Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou.
De não lograrem êxito na caça ao sentido como antigamente, querem que todos se esqueçam de que ele pode vir a existir. Não da maneira como foi ensinado aos seus pais, mas em uma nova forma. O homem foi cortado ao meio. Tudo o que sobrou foi o frenesi pela busca das satisfações imediatas -o sexo, o poder, a vaidade. Todos são inimigos de todos e de qualquer idéia do Todo. Só existem abismos, cisões, fracionamentos, ódios constantes e inconstantes. Mato porque quero. Porque me dá prazer. Just do it. Do estoicismo dos ingênuos partidários de Stálin e da revolução só sobrou o soçobramento à mercadoria. Porque a vida é agora.
E agora, Vandré?
Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio – e agora?
Mesmo assim, Jabores, Mainardis, Genoínos, Dirceus e tantos outros "companheiros" que capitularam às delícias do Kapital continuam teimando em nos ditar "o caminho, a verdade e a vida". Para alcançarmos a plenitude na Terra, devemos fortalecer a democracia e suas instituições. A defesa da liberdade de imprensa é também algo de essencial a fim de que o mundo maravilhoso e livre em que vivemos seja preservado. O mote é esquecermos essas coisas de mudanças, revoluções, coisas que estão por fora hoje, segundo esses arautos do sentido. O hoje é o amanhã. E ponto.
E agora, Vandré?
Com a chave na mão, quer abrir a porta, não existe porta, quer morrer no mar. Mas o mar secou, quer ir para Minas, Minas não há mais. Vandré, e agora?
É, Vandré...disseram que você foi torturado, que sofreu uma lavagem cerebral, o que você nega até a alma. Hoje até você, Vandré... Até você foi visto em quartéis, em congraçamentos com generais e coronéis mundo afora. Virou a voz oficial do oficialato. O que houve, Vandré? Por que você nada fala? Desistiu da vida? Sim, ela está dura, Vandré. Deve ter sido dura para você também.
Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre,você é duro, Vandré!
Estaremos condenados a não mais sonhar? O fim é o não-fim? Desembestados como bestas a trafegarmos a galope pelos Cantos da Vida? O que é do Canto, Vandré? O que é da Vida, Vandré? Talvez se de uma única ação pudermos depreender o sentido mágico que nos foi tirado durante todo o tempo, tudo já terá valido a pena. Ainda que isso se dê apenas no último suspiro, no último olhar por esse vale de misérias. Será que não, Vandré?
Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, Vandré! Vandré, para onde?
PS: Este é o centésimo texto que publico neste humilde espaço desde que resolvi abrir essa cloaca de pensamentos esparsos. Muito obrigado a todos os que já passaram por aqui, que passarinho e que passarão.
Domingo, Março 08, 2009
De como a inveja dos fracos correlaciona-se com o poder dos mais fortes.
Terça-feira, Janeiro 20, 2009
Da Falta de Sentido
Que tal asserção adorniana seja extremamente criativa; que ela lide com a questão da substituição de um sentido totalizador relativo às necessidades ontológicas, estritamente religiosas; o grande problema é que a própria Indústria Cultural não consegue se fazer tão totalizadora e doadora de sentidos conforme Adorno teria imaginado. Vejamos a quantidade de alcool, prozacs e suicídios espalhados pelas mesas todos os dias. A falta de sentido em todos os sentidos grassa sobretudo entre as camadas mais intelectualizadas da sociedade, das quais o próprio Adorno fazia parte. As camadas despossuídas de tudo contentam-se aparentemente com mais facilidade. Seja com o Faustão, seja com uma religião que lhes prometa dinheiro, seja com o vislumbre de um simples churrasco com cerveja em Mongaguá com os amigos ou ainda com a troca de seu carro 93 por um 96, diversos fatores apontariam para nós, intelectuais ou metidos a intelectuais, uma felicidade primitiva, rousseauniana que os inebriaria gratuitamente. Pax que, no entanto, parece estar longe de existir, tendo em vista a quantidade de bêbados, assassinatos, drogados e demais "desestruturas" presentes dentre os despossuídos que freqüentemente se tornam possuídos. Mas deixemos de lado, ao menos por enquanto, as camadas inferiores, o altrem, sempre mais difícil de ser apreendido do que nós mesmos. Voltemos às camadas médias intelectualizadas ou parcialmente intelectualizadas.
Tomemos a ciência, que na ausência de um sentido maior que a acomode, nada mais representa do que uma caixa de Pandora atualíssima. A ciência idealmente se move por meio do aumento do arquivamento do conhecimento dos ungüentos no momento disponíveis e da busca da aproximação mais exata possível do que vier a ser aquilo a que chamamos de "real" e dos processos que o regem. Esse acúmulo cada vez mais altissonante cria as especializações. Divisão do trabalho social incrustada em tudo o que é dinâmica social. Perde-se a partir desse ponto uma perspectiva totalizadora que um Kant, um Hegel, um Newton, um Adorno ou qualquer outro grande filósofo-cientista tenha possuído do direcionamento do mundo. O efeito confunde-se com a causa. Pela impossibilidade de compreensão de toda a dinâmica do conhecimento, tendo em vista a maneira como nossa sociedade o trata, o conhecimento se mostra possível na condição sine qua non do fraturamento. Quem quer que tente se alçar a um ponto determinado que permita se obter uma visão panorâmica de qualquer processo passa a ser taxado de louco, antiquado, estando ainda posicionado no século XIX, o século dos "Grandes Sistemas". Os grandes sitemas acabaram, ditam os profetas do niilismo neutral da ciência e da filosofia que se dão as mãos na mediocridade do contentamento com o negativismo. Havemos de nos saciar com o pouco que podemos enxergar. A caverna é aqui. O parco sentido fátuo e individualista restaria no quinhão que nos resta em nossa especialidade, a qual nós mesmos devemos pela força do nosso humor tornar especial, conforme Max Weber adverte. Tchau aos universalismos. O adjetivo "autoritário" é dado de presente a qualquer um que se arrisque a enxergar sentido onde obrigatoriamente, segundo as leis da "liberdade" de hoje, não deve existir. A falta de sentido em todos os âmbitos é a lei e o profeta. A visão sistemática é interdita. Devemos procurar apenas os pequenos vínculos que nossas especialidades de crítico literário, filósofo pescador ou religioso da religião permitirem. Tal niilismo serve de base filosófica às asserções de impossibilidade e de impassibilidade de correspondências lógicas de sentido. O sentido obrigatório é não ter sentido. Deus tem que estar morto. Il faut. E ponto final.
